Hora de comer, hora de conversar: como usar a CAA durante as refeições
Pense em quantas coisas acontecem durante uma refeição: alguém pede para passar o sal, outro comenta que a comida está quente demais, uma criança conta o que aconteceu na escola, alguém pede mais um pouquinho de arroz. A mesa é, sem exagero, um dos lugares com mais oportunidades de comunicação no nosso dia a dia.
Para quem usa Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), porém, a hora de comer costuma ser justamente o momento em que o sistema de comunicação fica longe: guardado para não sujar, esquecido no quarto ou simplesmente deixado de lado porque “as mãos estão ocupadas”. Neste artigo, vamos conversar sobre como trazer a CAA para a mesa e transformar as refeições em momentos de participação de verdade.
Por que as refeições são tão importantes para a comunicação
As refeições se repetem várias vezes ao dia, todos os dias. Essa repetição é uma grande aliada: o vocabulário aparece em contextos previsíveis, a pessoa vê as palavras sendo usadas de novo e de novo, e tem muitas chances de experimentar.
Além disso, comer é algo muito significativo. Há preferências, sensações, vontades e opiniões envolvidas. Quando a pessoa tem um jeito de expressar tudo isso, a refeição deixa de ser apenas algo que acontece com ela e passa a ser algo de que ela participa.
Vocabulário que faz diferença à mesa
Não é preciso ter centenas de símbolos de alimentos para começar. Muitas das mensagens mais úteis durante uma refeição usam palavras simples e flexíveis. Algumas ideias:
Para pedir e controlar a quantidade
- mais, de novo, pouco, muito
- acabou, chega, terminei
- quero, não quero, outro
Para comentar e dar opinião
- gostoso, ruim, quente, frio, salgado, doce
- gosto, não gosto, diferente
- olha, legal, eca (sim, comentários espontâneos também contam!)
Para pedir ajuda e objetos
- ajuda, abrir, cortar, pegar
- copo, colher, guardanapo, água
Para participar da conversa
- Saudações e fórmulas sociais, como bom apetite, obrigado e por favor
- Palavras para comentar o assunto da mesa: eu também, sério?, que legal
- Uma forma de chamar a atenção, como o nome das pessoas da casa
Os nomes dos alimentos favoritos e das comidas que aparecem com frequência na casa também merecem um espaço. O ideal é que esse vocabulário reflita a realidade da família: o feijão de todo dia, a fruta preferida, o lanche da tarde.
Dicas práticas para trazer a CAA para a mesa
1. Deixe o sistema por perto e visível
Se a CAA está longe, ela não é usada. Encontre um lugar fixo na mesa onde o dispositivo ou a prancha fique ao alcance da pessoa. Um suporte simples, uma capa protetora ou uma prancha plastificada podem ajudar a reduzir a preocupação com sujeira.
2. Tenha uma prancha temática de refeição
Muitas famílias gostam de ter, além do sistema principal, uma prancha de baixa tecnologia dedicada às refeições. Ela pode ser plastificada, lavável e ficar sempre na cozinha. É uma ótima opção complementar, mas lembre-se: ela não substitui o sistema completo da pessoa, que deve continuar disponível para que ela possa falar sobre qualquer assunto, não só sobre comida.
3. Espere antes de oferecer
É muito comum que quem cuida já saiba o que a pessoa quer e coloque mais comida no prato antes mesmo de qualquer pedido. Experimente fazer uma pequena pausa. Olhe com expectativa, aguarde alguns segundos a mais e dê espaço para que a pessoa se comunique. Essa espera, feita com carinho e sem pressão, abre muitas portas.
4. Use o sistema enquanto fala
Ao comentar algo durante a refeição, aponte também os símbolos correspondentes no sistema da pessoa. Por exemplo, ao dizer “está quente, vamos esperar”, toque em quente e esperar. Assim, a pessoa vê como e quando aquelas palavras são usadas.
5. Vá além dos pedidos
Pedir comida é importante, mas a refeição tem muito mais a oferecer. Convide a pessoa para comentar, opinar, contar algo e participar do papo da família. Perguntas abertas e comentários do tipo “eu achei esse suco bem azedo, e você?” ajudam a sair do esquema de apenas pedir e receber.
6. Respeite as respostas
Se a pessoa disse chega ou não gosto, essa comunicação merece ser levada a sério. Mesmo quando não é possível atender exatamente ao que ela pediu, reconhecer a mensagem (“entendi, você não gostou”) mostra que a voz dela tem valor e incentiva novas tentativas.
E fora de casa?
Lanchonetes, restaurantes, festas de aniversário e a cantina da escola são ótimas oportunidades para ampliar o uso da CAA. Algumas ideias:
- Prepare antes: se possível, veja o cardápio com antecedência e adicione ao sistema as opções que costumam ser pedidas.
- Deixe a pessoa fazer o pedido: com apoio, ela pode mostrar ao atendente o que deseja. Frases prontas como “eu quero…” e “sem gelo, por favor” podem ser úteis.
- Tenha paciência com o ambiente: lugares barulhentos e movimentados podem tornar tudo mais desafiador. Um volume de voz adequado no dispositivo e um lugar mais tranquilo à mesa podem ajudar.
Um cuidado importante
Cada pessoa tem sua própria relação com a alimentação. Algumas têm questões sensoriais, restrições, necessidades específicas de posicionamento ou acompanhamento profissional relacionado à alimentação. A CAA é uma ferramenta de comunicação: ela ajuda a pessoa a expressar o que sente e deseja, mas não substitui as orientações da equipe que a acompanha. Converse com os profissionais de referência (como fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais) para alinhar o que faz sentido em cada caso.
Comece pequeno
Não é preciso mudar todas as refeições de uma vez. Escolha uma refeição do dia, como o café da manhã ou o jantar, e combine com a família de deixar a CAA sempre por perto nesse momento. Escolha duas ou três palavras para destacar na semana, como mais, acabou e gostoso, e use-as com frequência.
A mesa é um lugar de encontro. Quando todos têm um jeito de falar, todos podem fazer parte da conversa.
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