CAA nas transições: como apoiar mudanças de atividade e de rotina
Para muitas pessoas, trocar de uma atividade para outra é simples. Para outras, especialmente quem vive o autismo, tem paralisia cerebral ou convive com dificuldades de linguagem, a transição pode ser um dos momentos mais desafiadores do dia. Quando a pessoa não consegue perguntar o que vem depois, pedir mais cinco minutos ou dizer que está chateada, a comunicação costuma aparecer de outras formas, como choro, resistência ou afastamento. A CAA pode ajudar a abrir esse canal.
Por que as transições são tão difíceis?
Há vários motivos possíveis, e eles variam de pessoa para pessoa:
- Falta de previsibilidade: a pessoa não sabe o que vem a seguir.
- Dificuldade de interromper algo de que gosta muito.
- Noção de tempo mais difícil de perceber, como o que significa 'daqui a pouco'.
- Sobrecarga sensorial no lugar para onde vai ou no caminho até lá.
- Poucas oportunidades de dizer o que sente ou o que prefere.
Entender que o comportamento tem uma mensagem por trás ajuda a trocar a pergunta 'como fazer parar?' por 'o que a pessoa precisa me dizer agora?'.
Antecipar antes de acontecer
O aviso funciona melhor quando vem antes do momento da troca e no mesmo sistema que a pessoa usa para se comunicar.
- Avise com antecedência. Use símbolos ou palavras do dispositivo para dizer o que vai acontecer: 'acabar', 'banho', 'depois'.
- Mostre a sequência. Uma sequência curta de dois ou três símbolos, como 'lanche, depois escova dentes, depois história', já organiza o que vem pela frente.
- Torne o tempo visível. Temporizadores visuais, ampulhetas ou cartões de 'falta pouco' podem tornar o tempo mais concreto.
- Combine um sinal de término. Um símbolo de 'acabou' ou 'terminou' usado sempre do mesmo jeito cria um ritual conhecido.
Modelar a linguagem da transição
Assim como em outros momentos do dia, a pessoa aprende o vocabulário quando vê os outros usando. Ao anunciar uma mudança, aponte os símbolos no sistema dela enquanto fala. Palavras úteis para deixar sempre à mão:
- acabou, terminou
- mais um pouco, mais tempo
- agora, depois, primeiro
- vamos, esperar
- não quero, quero ficar
- ajuda, triste, bravo
Inclua também o vocabulário de quem está se despedindo de algo bom: 'tchau, brinquedo', 'tchau, parque'. Despedir-se faz parte do processo.
Dar voz à pessoa durante a mudança
Transição não precisa ser apenas uma ordem que vem de fora. Sempre que possível, ofereça participação:
- Deixe escolher entre duas formas de fazer a troca, como levar um brinquedo para o carro ou escolher qual caminho seguir.
- Permita que a pessoa aperte o botão de 'acabou' ou vire o cartão da rotina.
- Acolha quando ela disser 'não quero', mesmo que o plano continue. Algo como: 'Você não quer sair. Eu entendi. Vamos sair, e depois você pode escolher o lanche'.
Ser ouvido, mesmo quando a resposta é 'agora não dá', muda a forma como a pessoa vive a mudança.
Quando a transição não sai como o planejado
Haverá dias difíceis, e isso faz parte. Nesses momentos:
- Mantenha a calma e use poucas palavras.
- Ofereça o dispositivo ou os símbolos sem exigir que a pessoa os use na hora.
- Nomeie o sentimento: 'Está difícil parar'.
- Depois que tudo acalmar, converse sobre o que aconteceu e o que pode ser diferente na próxima vez.
Um passo de cada vez
Comece por uma única transição do dia, aquela que mais pesa, e construa uma rotina previsível em torno dela. Observe o que funciona, ajuste e comemore os pequenos avanços. Com antecipação, vocabulário disponível e muita escuta, as mudanças podem se tornar momentos de comunicação, e não só de tensão.
Cada pessoa é única: converse com fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e educadores que acompanham o caso para adaptar essas ideias à realidade de quem você apoia.