Avós, tios e primos também conversam: como incluir a família estendida na CAA
Em muitas famílias, a Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) começa dentro de casa: mãe, pai, irmãos e terapeutas aprendem aos poucos a usar a prancha ou o aplicativo. Mas aí chega o almoço de domingo na casa da avó, a festa de aniversário do primo ou as férias com os tios, e surge aquela sensação de que a conversa fica restrita a poucas pessoas. A boa notícia é que dá para mudar isso, e o resultado costuma ser bonito de ver.
Por que incluir a família estendida?
Comunicação é, antes de tudo, relação. Quando só uma ou duas pessoas sabem interagir com a CAA, a pessoa usuária acaba dependendo delas como intérpretes. Quando avós, tios, padrinhos e primos também entram na conversa, ela ganha mais oportunidades de se expressar, mais parceiros diferentes e mais chances de construir vínculos próprios, do jeito dela.
Além disso, cada familiar traz assuntos, piadas, memórias e jeitos de falar diferentes. Isso enriquece o vocabulário e mostra, na prática, que a CAA serve para a vida toda, e não só para a escola ou a terapia.
Comece pelo porquê, não pelo como
Antes de explicar botões e categorias, vale explicar o sentido. Algumas frases simples ajudam a abrir o caminho:
- “Essa é a voz dele. Quando ele toca aqui, está falando com você.”
- “Ela entende muito mais do que consegue dizer com a boca.”
- “Não precisa saber tudo. Só precisa esperar e prestar atenção.”
Muitos familiares, especialmente os mais velhos, podem ter receio de errar ou achar que a tecnologia é complicada demais. Tranquilize: ninguém precisa virar especialista. O mais importante é a disposição para ouvir.
Três atitudes que qualquer pessoa pode aprender
1. Esperar
O tempo de resposta com CAA costuma ser maior do que na fala oral. Explique à família que o silêncio não é desinteresse: é a pessoa procurando a palavra. Contar mentalmente até dez antes de ajudar já faz uma diferença enorme.
2. Falar com a pessoa, não sobre ela
É comum que um parente pergunte à mãe “ele quer suco?” em vez de perguntar diretamente. Incentive todos a se dirigirem à própria pessoa usuária de CAA, olhando para ela e dando espaço para a resposta.
3. Usar a CAA também
Quando o avô toca em quero e bolo enquanto fala “eu quero bolo”, ele está mostrando que aquela forma de comunicar é valorizada por todos. Não precisa ser em toda frase; alguns toques aqui e ali já contam muito.
Prepare o vocabulário para os encontros
Uma forma carinhosa de aproximar a família é personalizar a CAA com elementos dela:
- Fotos e nomes dos avós, tios, primos e até dos bichos de estimação da casa deles.
- Apelidos de verdade: se a avó é a Vovó Nena, o botão deve dizer Vovó Nena.
- Lugares e atividades típicas: sítio, praia, piscina, pescaria, bolo de fubá, jogo de dominó.
- Frases de afeto e brincadeira que fazem parte da família, como bordões e cumprimentos próprios.
Uma ideia bacana é pedir aos próprios parentes que sugiram palavras e enviem fotos. Assim eles se sentem parte da construção, e a pessoa usuária encontra na CAA o mundo afetivo dela.
Um guia de bolso para visitas
Para quem vê a pessoa com menos frequência, um pequeno roteiro ajuda muito. Pode ser uma folha impressa na geladeira da avó ou uma mensagem no grupo da família, com itens como:
- Como ela diz sim e não (gestos, expressões, botões).
- Onde ficam as palavras mais usadas no aplicativo ou na prancha.
- Assuntos de que ela gosta de conversar no momento.
- O que fazer se ela parecer frustrada: esperar, oferecer a CAA, perguntar com calma.
- Um lembrete: a CAA é a voz dela, então ela deve estar sempre por perto.
Lidando com resistências e dúvidas
Às vezes aparecem comentários como “no meu tempo não tinha isso” ou “se der o aparelho, ela não vai querer falar”. São preocupações comuns, geralmente nascidas do carinho e da falta de informação. Vale responder com calma, compartilhar a experiência de vocês e, se possível, convidar o familiar para uma sessão com a equipe terapêutica ou para assistir a um momento de conversa real. Ver a pessoa se comunicando costuma convencer mais do que qualquer explicação.
Também é importante respeitar o ritmo de cada um. Tem tio que vai abraçar a ideia no primeiro dia e avó que vai precisar de algumas visitas para se sentir à vontade. Tudo bem.
Celebre as pequenas conversas
O primeiro “oi, vovô” pela CAA, a primeira piada contada ao primo, o primeiro pedido feito direto para a tia: esses momentos merecem ser notados e comemorados. Eles mostram para todos, inclusive para a pessoa usuária, que a voz dela alcança cada vez mais gente.
Família grande é conversa espalhada pela casa toda. Com um pouco de preparo e muita paciência, a CAA pode estar presente em cada canto dela.
No Tagatela, você pode criar pranchas com fotos, nomes e frases da sua família para levar a cada encontro. Experimente montar uma prancha especial para a próxima visita aos avós e conte pra gente como foi!