Adolescência e CAA: quando o vocabulário precisa crescer junto

Adolescência e CAA: quando o vocabulário precisa crescer junto

Por Equipe Tagatela · 19 de setembro de 2026

Tem um momento na vida de muitas famílias que passa quase despercebido: a pessoa que usa CAA cresce, muda de voz interior, muda de assunto, muda de vontade — e a prancha continua exatamente igual à que foi montada aos cinco anos de idade. Ainda tem a categoria de bichinhos da fazenda, ainda tem quero colo em destaque, ainda tem aquela foto do ursinho que faz tempo que ninguém procura.

Não é descuido de ninguém. A prancha montada na infância funcionou, e o que funciona a gente tende a não mexer. Mas o vocabulário que serviu na pré-escola pode ficar apertado depois — do mesmo jeito que o uniforme fica.

Crescer também é mudar o jeito de falar

Repare em qualquer adolescente que fala oralmente. O assunto muda, o tom muda, o repertório muda. Aparecem palavras que os adultos nem sempre entendem, aparecem opiniões fortes, aparece o desejo enorme de ter conversas que não passam pelos pais. Nada disso é birra ou fase ruim: é desenvolvimento acontecendo.

Quem se comunica por CAA tem exatamente as mesmas necessidades. A diferença é que, para essa pessoa, boa parte do que ela pode dizer depende do que alguém colocou no sistema. Se ninguém programou a palavra chato, ela não vai poder chamar nada de chato. Se ninguém programou o nome da banda favorita, aquele assunto simplesmente não existe na conversa.

Sinais de que o vocabulário ficou apertado

Gírias e identidade: o direito de soar como os outros

Uma prancha de adolescente precisa de gírias. Precisa de nossa, sério?, que horror, curti, para com isso, deixa, tanto faz. Precisa de palavrão também — e aqui vale uma conversa honesta em família. Adolescentes que falam oralmente xingam, testam limites, usam linguagem forte entre amigos. Negar isso a quem usa CAA é impor um padrão de comportamento que ninguém mais precisa seguir.

Pode incomodar, e não tem problema admitir que incomoda. A pergunta útil é: as regras da casa valem igualmente para todo mundo? Se um irmão pode dizer que algo é uma droga e levar uma bronca, a pessoa que usa CAA também deveria poder dizer e levar a mesma bronca. O acesso à palavra vem antes; a combinação sobre quando usar vem depois, como vem para qualquer adolescente.

Identidade também aparece nos detalhes visuais. Símbolos mais sóbrios, fotos atualizadas, nomes de pessoas reais do círculo social, temas de interesse do momento. Um sistema que parece coisa de criança pequena manda uma mensagem sobre como aquela pessoa é vista — e adolescentes percebem isso rápido.

Privacidade: nem toda conversa é da família

Esse é um dos pontos mais delicados e menos falados. Quem usa CAA muitas vezes se comunica com alguém por perto o tempo todo: mãe, pai, acompanhante, professor. As mensagens passam por ouvidos adultos antes de chegarem ao destino. Isso pode ser necessário em muitos momentos, mas também significa uma vida com pouquíssima privacidade justamente na idade em que a privacidade importa muito.

Alguns caminhos possíveis:

Respeitar isso é uma forma concreta de respeito, e costuma aumentar a vontade de usar o sistema.

Autoadvocacia: falar por si com quem não conhece

Na adolescência começam situações em que a família não está junto: uma entrevista, um estágio, uma consulta em que o profissional fala com o acompanhante em vez de falar com a pessoa. Ter frases prontas de autoadvocacia ajuda muito, e elas merecem lugar de destaque no sistema. Por exemplo:

Ter a palavra pronta não obriga ninguém a usá-la. Mas não ter a palavra tira a escolha antes mesmo dela existir.

Como atualizar sem apagar a história

  1. Converse antes de mexer. Mostre o que pretende mudar e pergunte o que a pessoa quer manter. O sistema é dela.
  2. Não apague de uma vez. Mova o vocabulário antigo para uma pasta secundária em vez de excluir. Algumas palavras da infância seguem sendo úteis e afetivas.
  3. Mantenha a localização do que já é automático. A memória motora é valiosa; mudar tudo de lugar de uma vez custa caro. Acrescente antes de reorganizar.
  4. Colete palavras da vida real. Anote por uma semana o que os colegas da mesma idade falam, o que passa nas séries e músicas que a pessoa gosta, os nomes que aparecem no dia a dia.
  5. Inclua a pessoa na programação. Sempre que possível, ensine a adicionar e editar botões. Autonomia sobre o próprio vocabulário é um salto enorme.
  6. Revise com frequência. Um combinado simples: revisar o vocabulário a cada poucos meses, como quem confere o tamanho do sapato.

Uma nota para quem acompanha

Atualizar o sistema de CAA de um adolescente às vezes mexe com a gente. Aparecem palavras que a gente não queria ouvir, opiniões contrárias, pedidos de espaço. É sinal de que está funcionando. A comunicação não serve só para pedir água e avisar que está tudo bem; serve para discordar, reclamar, flertar, brincar, dizer que quer ficar quieto.

Cada família encontra o próprio ritmo, e a orientação de fonoaudiólogos e terapeutas que acompanham o caso segue sendo a melhor bússola para decisões específicas. Mas há uma pergunta que qualquer pessoa pode fazer hoje, olhando para a prancha em uso: com este vocabulário, essa pessoa conseguiria ser ela mesma numa conversa com alguém da idade dela?

Se a resposta for não, já sabemos por onde começar. E começar é mais simples do que parece: uma palavra nova por dia já muda o ano inteiro.